ego
“acho melhor tu parar”, ele dizia, freando o tempo com as mãos abertas, com aquela calma dele toda, aquela serenidade de sempre, enquanto eu, descabelada em casa, de pijama de camiseta de banda dos anos 1970, chorando e maquiagem do dia borrada, claro, histérica, quebrando os copos e as plantas na parede, sujando toda sala e as paredes encardidas. eu segurava a raiva nos dentes e ele largava ironias soltas, algo sempre começando ” é como tu disse…”. e eu, agredida, dizia um palavrão desconcertado “eu nunca disse isso”. era sempre assim: ele naquela serenidade, naquela calma, jogando as cartas pra mim, sem culpa nenhuma, mas lá no fundo, no ego, quem jogava os copos era sempre ele, que chorava, que gritava raivoso dentro dele. e era eu, eu que no jogo de máscaras, deixava a emoção transbordar e a loucura fazer de conta que era louca, isso pra me dar tempo pra pensar, pra raciocinar, o ego, pra entender por quais razões acontecia e eu sabia. eu sabia o que ia acontecer, embora nunca tivesse vivido.
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